Quem procura acha...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O FLAGRANTE - Luiz Fernando Veríssimo

José olha fundo nos olhos de Roberto. Os dois levantam suas taças.

– A nós.

– A nós.

Bebem, olhos nos olhos. Nisto a porta do apartamento se abre e entra uma mulher.

– Sueli! - exclama José....

– Arrá! - diz Sueli. – Te peguei!

– O que você está fazendo aqui?

– Me enganando. E com outro homem!

– Sueli, em primeiro lugar, você não me "pegou", porque nós não estávamos fazendo nada. Em segundo lugar, mesmo que estivéssemos fazendo alguma coisa, eu não estaria "enganando" você, pela simples razão de que nós não somos mais casados. Nos divorciamos há muito tempo e eu não devo mais satisfações a você. Se você tem medo de ser enganada, preocupe-se com seu atual marido e...

– Você quer ficar quieto, José? – interrompe Sueli – não estou falando com você. Estou falando com ele.

José aponta para Roberto.

– Com ele?

– É. Meu atual marido.

– Seu marido?!

Roberto está quieto. José, para Roberto:

– Você não me disse que era casado!

– Cala a boca, José – ordena Sueli. Depois dirige-se a Roberto.

– E então, o que você me diz? Dois meses de casado e você já anda com um qualquer. Seu pilantra!

– Um qualquer, não – protesta José. – Lembre-se que eu já fui seu marido.

Sueli começa a chorar. Roberto se aproxima dela.

– O que é isso, Sueli? Fique calma. Nem parece você. Vamos, Suelizinha...

– Não chama de Suelizinha que ela não gosta – instrui José.

Tarde demais.

– Não me chama de Suelizinha!

– Deixa que eu sei fazer – diz José, afastando Roberto e abra¬çando Sueli. – Vamos, Su. Que bobagem.

José beija a orelha de Sueli e mostra para o outro.

– A orelha é importante. Ó.

– Morde ou só beija?

– Pode dar uma mordidinha.

– Deixa eu tentar.

Roberto afasta José e abraça Sueli. Começa a mordiscar sua orelha. Dá resultado. Sueli se acalma. Mas agora José está enciumado.

– Que foi? – pergunta Roberto, notando a cara de José.

– Nada.

– Nada, não. Você está chateado.

– Não é nada.

– Faz cafuné nele — diz Sueli.

– O quê?

– Faz cafuné que ele gosta. Em cima da cabeça.

Roberto começa a fazer cafuné em José. Ao mesmo tempo, mordisca a orelha de Sueli. Nisso a porta se abre e entra outra mulher.

– Anita! – exclama José.

– Eu sabia. Segui você até aqui porque sabia que ia encontrar uma cena assim. Você não tem vergonha? Depois de todas as juras que fizemos?

– Anita, não é nada do que você está pensando – diz José.

– Eu...

– Quer ficar quieto, José? Eu estou falando com ela.

José aponta para Sueli.

– Com ela?!

– Anita – diz Sueli –, vem cá.

Anita se junta ao grupo. Sueli a abraça.

. – Pronto, pronto – diz Sueli.

– Roça a nuca dela com o queixo – instrui José.

– Assim?

– É.

Ficam os quatro de pé no meio da sala. Roberto mordiscando a orelha de Sueli, que roça a nuca de Anita com o queixo, e fazendo cafuné em José, que, sem ter o que fazer, pergunta:

– O caso de vocês duas começou antes ou depois do nosso casamento?

– Não é a hora, José – diz Sueli.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Um oásis no deserto [Martha Medeiros]


Aconteceu no Rio, pelo que ouvi falar. Um garoto aparentando ter uns 19 anos resolveu improvisar um pocket show usando uma esquina da cidade como palco: a cada vez que o semáforo fechava, ele se posicionava na frente dos carros e tocava saxofone por um minuto. Aí o sinal abria e ele voltava para a calçada. Não era malabarismo para garantir uns trocados. Ele fez isso por... sei lá, sugira você uma razão: farra, vaidade, benemerência, esperança de cruzar com um produtor musical? O que importa é que fez, e o curioso é que, assim que o sinal abria, os motoristas custavam a arrancar seus carros, perdiam a pressa. Haviam se deparado com um pequeno oásis em meio ao caos.



Cheguei do Marrocos há poucos dias, um país encantador, com uma biodiversidade de tirar o fôlego. Cruzei a árida cordilheira Atlas, percorri um pequeno trecho de uma trilha que já fez parte do Paris-Dakar e cheguei a dormir uma noite num acampamento de tuaregues em pleno deserto: tudo estupendo, mas seco. Ainda assim, engolindo areia, fui surpreendida várias vezes por alguns oásis que quebravam o jejum.



Fazia-se uma curva na estrada e de repente se vislumbrava um conjunto de palmeiras verdes, tão verdes que pareciam pinceladas à mão. De onde brotavam, de que solo fértil, de que estúdio cenográfico? Pareciam miragens.

Aterrissei de volta ao Brasil e entre as notícias de um apagão inexplicável e de um escândalo mais inexplicável ainda por causa de uma reles minissaia que gerou teses sociológicas, preferi me ater a essa história do garoto saxofonista que fazia shows de um minuto no agito das ruas, silenciando os buzinaços com sua música. Pensei: também é um oásis.

O que não falta por aí são pessoas com vidas desérticas, pensamentos viciados, gente presa em calabouços e respirando por aparelhos, sem dedicar um minuto, um minutinho que seja por dia, a criar seu próprio oásis. Os nossos podem ser tão numerosos quanto os que eu encontrei naquelas paisagens marroquinas em tons de terracota, em que já não se distingue o que é cor original ou desbotada, uma estética da solidão que tem sua beleza e força, mas que clama por um pouco de oxigênio.

As pessoas dizem que a tecnologia, que deveria servir para agilizar o nosso trabalho e liberar mais tempo para o lazer, está, ao contrário, produzindo ainda mais trabalho e mais estresse. A culpa não é da tecnologia, que, pelo que sei, ainda não tem cérebro, mas de seus usuários, que deveriam pensar mais em vez de entrarem na paranóia de preencher cada hora do seu dia com atividades produtivas, ignorando a produtividade que também há num encontro entre amigos, num cinema, numa caminhada, na audição de um disco, na meditação, num fim de semana longe da cidade, na leitura de um livro, num passeio de bicicleta, num namoro, no desprezo à lógica e no respeito aos acasos. Esses são os verdadeiros oásis, ao contrário dos oásis fabricados, como, por exemplo, restaurantes da moda onde não se come bem nem se ouve ninguém.



O saxofonista no meio da rua nada mais fez do que ofertar à vida opaca um toque de verde.


(publicado na "Revista" do Jornal O Globo no dia 22/11/09)